A palavra do Reitor

 

“Passemos da avidez à generosidade”

Quero aproveitar este nosso último encontro do semestre para voltar a um tema preocupante: a revolta da natureza em resposta às constantes agressões a que vem sendo submetida nos últimos tempos. Impossível não se inquietar diante das notícias diárias de catástrofes ambientais em todos os cantos do planeta: incêndio florestal em Portugal, onda de calor com temperaturas próximas a 48 graus no Sudoeste dos Estados Unidos, enchentes no Nordeste brasileiro... Aliás, não há como não se impressionar diante do dilúvio na cidade do Rio de Janeiro que marcou o último 21 de junho.

Em sua defesa pelos pobres e excluídos de nossa contemporaneidade, a Igreja não se cansa de mostrar que são eles a compor o perfil dos mais atingidos por essa resposta da natureza aos nossos desmandos. Inócuo pregar conversão e santificação, pela fraternidade, irmandade e dignidade de todos enquanto única família de Deus, se mantivermos indiferentes ao impacto da crise ecológica sobre as populações pobres e o aumento cada vez maior da desigualdade social.

É preciso que nos conscientizemos de nossa responsabilidade em relação a esses fenômenos. Durante milhões de anos, antes que nossa espécie se colocasse de pé, liberasse as mãos e forjasse a lança e o fogo, nenhum ser vivo adquirira tamanho poder destruidor! Por uma única queimada em florestas, pássaros e animais de pequeno e grande portes se veem expulsos de seu habitat, migrando desesperados em busca de ar, fugindo do insuportável calor! Eis a razão de São Paulo, na carta aos romanos, dizer que a criação inteira geme e sofre as dores de parto, ansiando pelo advento da vida em Cristo (Cf. Rm 8, 22)

A Encíclica Laudato Sì, inspirada no Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis, “propõe uma tomada de consciência sobre a crise climática, energética, sanitária e alimentar das últimas décadas, e nos permite individuar suas causas objetivas (exploração, poluição, limitação de recursos) e subjetivas (consumismo, desperdício, indiferença)”.

Francisco nos lembra que a desigualdade social, fruto da maximização do lucro à custa da saturação da natureza, não afeta apenas os indivíduos, mas países inteiros, e isso obriga repensarmos a quantas anda a ética nas relações internacionais, uma ética excludente, que, em nome dos princípios capitalistas, coloca em campos opostos países ricos e pobres e deixa esses últimos curvados diante de políticas de interdependência e barreiras protetivas dos centros mundiais do poder econômico, tecnológico e político.

Ainda no bojo das encíclicas que tratam do tema, a Igreja chama atenção agora para a urgente necessidade de, ela própria, ater-se à formação de leigos para uma defesa efetiva do meio ambiente. Entende que, para uma ação missionária eficaz em sua tarefa de transformação social, particularmente aquela relacionada às questões de preservação da dignidade humana e do ambiente, faz-se necessária uma formação que contemple itinerários diversificados, regidos pelo respeito aos processos individuais e comunitários.

O recente documento da CNBB (105), no tópico sobre a formação dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, retoma o leitmotiv “igreja em saída” para reforçar o ensinamento de que “cada membro é chamado a ser um sujeito ativo que, segundo sua capacidade e de acordo com seus carismas e sua função, se coloca a serviço dos irmãos” (n. 22). Por um processo formativo planejado, cada seguidor de Jesus Cristo tenderá a se perceber inserido num processo de identificação contínua com seu mestre, transformando-se ao transformar a sociedade em que vive.

Como diz o Papa, “nós, os seres humanos, não somos meramente beneficiários, mas guardiões das outras criaturas. Pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação” (EG, 215).

Este é o meu recado para vocês neste fim de semestre letivo: perseguir uma fé autêntica, avessa ao comodismo e ao individualismo, imbuída de profundo desejo de mudar o mundo, de transmitir valores e deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela.

Já não basta dar um uso “bom” ao lixo que produzimos. Nas palavras do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, é preciso frear a fome de lucro que faz produzir objetos de desejos substituídos numa cadeia sem fim. Cristãos ou não, passemos do consumo ao sacrifício, da avidez à generosidade, do desperdício à capacidade de partilha, em uma ascese que “significa aprender a dar, e não simplesmente renunciar”.

 
 
São Paulo, 22 de junho de 2017
 
Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani
Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI