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Palavra do Reitor

Cidadania e santificação

Aproveito este espaço para agradecer o empenho e o belo trabalho de todos os responsáveis pela estruturação, configuração e conteúdo do novo site do UNIFAI. Há muito eu sonhava com uma comunicação mais lúdica, ágil e funcional neste importante veículo de comunicação, que deve refletir o rosto de nossa instituição. Desde que propus a revisão da página do UNIFAI na WEB, houve uma adesão muito positiva por parte de todos eles. Em nome da comunidade do Centro Universitário Assunção – UNIFAI os nossos mais sinceros agradecimentos.

E para marcar minha estreia no novo site, faço menção ao teor da mais nova exortação apostólica do Papa Francisco: “Gaudete et exsultate, sobre a chamada à santidade no mundo atual”, a terceira de seu pontificado. Nesse novo documento, escrito numa linguagem acessível e bem direta, deixa claro que não se deve esperar dessa exortação um tratado sobre a santificação, com definições e análises. Seu objetivo é mais humilde: “fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades” (GE, 2).

O papa nos lembra que, em várias passagens da Bíblia, Deus faz uma verdadeira convocação à santidade. Ele deseja de cada um de nós, ainda que advindos dos mais diferentes povos, uma adesão à santidade, a fim de que não nos resignemos a uma vida medíocre, superficial e indecisa (GE, 1). À primeira vista, diz, parece que o caminho rumo a uma vida santa pode parecer difícil ou entendido como possível somente a bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos. No texto, ele reconhece que “muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração” (GE, 14).

Francisco afirma que, embora comumente pode se pensar assim, isso não é verdade. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. Assim, sugere: “És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (Ibidem).

 

De espírito colegial, o documento é composto de cinco capítulos: o primeiro trata do chamado à santidade para o homem e mulher contemporâneos; o segundo, dos dois inimigos sutis da santidade (o gnosticismo e o pelagianismo atuais); o terceiro trata da santidade, à luz das bem-aventuranças anunciadas pelo Mestre; o quarto apresenta algumas características da santidade no mundo atual; e último, da relação entre luta, vigilância e discernimento inerentes a um caminho de santidade, iniciando pelas palavras Gaudete et Exsultate e concluindo com as “bem-aventuranças” anunciadas por Jesus (Cf. Mt 5, 12).

Procurando jogar uma luz nova sobre o chamado à santidade, no segundo capítulo, sobre os dois inimigos de um caminho de santificação, Francisco destaca que os adeptos do neopelagianismose caracterizam pela obsessão pela lei, pelo fascínio em exibir conquistas sociais e políticas e pela ostentação no cuidado da liturgia, por exemplo, fazendo da vida da Igreja uma peça de museu ou uma propriedade de poucos (Cf. GE, 58). Como remédio contra esse mal, cita a hierarquia das virtudes, cujo primado pertence às virtudes teologais(fé, esperança e caridade), recordando que, dentre as três, a caridade é a maior delas (GE,60).

Em relação ao neognosticismo, ele alerta para a tendência da pessoa a se enclausurar numa série de raciocínios e conhecimentos, na imanência de sua própria razão ou de seus sentimentos (Cf. GE, n. 36), afastando-se da realidade e das formas concretas de santidade. Como diz Francisco, “ao longo da História da Igreja, ficou bem claro que aquilo que mede a perfeição das pessoas é seu grau de caridade, e não a quantidade de dados e conhecimentos que possam acumular” (GE, 37). O papa lembra os limites da razão e o ilegítimo controle rigoroso sobre a vida dos outros, além de se referir às diferentes e legítimas maneiras de interpretar muitos aspectos da doutrina e da vida cristã presentes na tradição da Igreja (Cf. GE, 43).

Ao reproduzir a mensagem-vídeo dirigida ao Congresso Internacional de Teologia da Pontifícia Universidade Católica Argentina (UCA), ocorrido de 1 a 3 de setembro de 2015, ele afirma: “[a nossa compreensão da doutrina] não é um sistema fechado, privado de dinâmicas próprias capazes de gerar perguntas, dúvidas, questões (...); e perguntas do nosso povo, as suas angústias, batalhas, sonhos e preocupações possuem um valor hermenêutico que não podemos ignorar, se quisermos deveras levar a sério o princípio da encarnação. As suas perguntas ajudam-nos a questionar-nos, as suas questões interrogam-nos” (APUD GE, 44).

Por esse documento, Francisco recorda que o chamado à santidade não visa à entrada no Reino de Deus somente após a morte, mas já neste mundo, encontrando sua plenitude na vida que transcende o tempo e o espaço. O estado de bem-aventurança eterna se apresenta com uma dádiva de Deus, que completa aquilo que não pudemos realizar com perfeição. A caridade, bilhete de entrada a esse Reino, não se traduz na política de conluio e foro especial, mas na ação política e/ou na reivindicação por políticas públicas que atendam aos interesses de toda a população. Afinal, quando somos capazes de lutar, por exemplo, por melhores condições de vida até mesmo para o nosso maior inimigo, estaremos exercendo a caridade em seu mais alto grau, atingindo a santificação pelo exercício da cidadania.

São Paulo, 04/05/2018

Reitor

Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani

Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI