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Palavra do Reitor

E no campo político, quem nos representa?

Estamos em clima de Copa de Mundo. Os noticiários internacionais acompanham de perto os preparativos da seleção brasileira, favoritíssima ao lado de Argentina, Alemanha, França e Espanha. Chamou-me a atenção a observação de um repórter estrangeiro sobre o clima de Copa que tomou conta do País: “Para os brasileiros, a escolha do técnico da seleção de futebol é tão importante quanto a escolha do presidente da república.”

Este olhar de fora me fez pensar sobre como estamos conduzindo nossas expectativas às vésperas de eleições para cargos tão importantes de governo: e se toda essa empolgação, essa energia canalizada para a seleção do técnico Tite fosse empregada na escolha dos nossos candidatos no campo político? Com certeza, estaríamos bem mais confiantes de que um Brasil melhor é possível.

A seleção chega bem cotada a mais um campeonato mundial, tendo no banco de reservas jogadores tão bons quanto os titulares justamente porque o técnico Tite ousou contrariar a lógica mercantilista imposta pela CBF. Há muito ele vem testando um time fixo e chega ao torneio com praticamente duas seleções aptas a enfrentar nossos temíveis adversários.

Na era Dunga, a escolha de quem representaria o Brasil em campo era feita segundo os critérios de mercado. Passava-se o tempo todo de preparação em rodízio de jogadores. A seleção servia como vitrine para projeção de determinados atletas, não importando muito a qualidade do futebol que apresentavam em campo. E às vésperas dos campeonatos, ninguém sabia ao certo quem seriam os escolhidos.

No campo político, é exatamente isso que está ocorrendo. Quem serão os nossos eleitos capazes de promover mudanças tão necessárias para o País avançar na área social, na educação, na saúde, na produção, com geração de emprego e renda? Temos banco de reserva com nomes capazes de fazer frente a tantos desafios, ou teremos mais uma vez de escolher o que consideramos menos pior? Muitos podem alegar que mais uma vez não temos opções, mas se não as temos, precisamos começar a discutir o porquê e como reverter esse quadro.

Como Tite, que se impôs contra o sistema desde o começo para formar um time de respeito, precisamos lutar para montar uma equipe capaz de mudar, primeiro, a estrutura perniciosa que tomou conta do poder político no Brasil, avaliar bem quais os candidatos dispostos a mudar essa lógica, ousando votar uma reforma política que acabe com a manutenção de currais eleitorais.

Não é mais possível essa dança de cadeiras, em que os políticos vão mudando de partido segundo seus interesses e conveniência, lançando mão de estratagemas e da ajuda dos partidos nanicos para se perpetuarem no poder. É inadmissível que, depois de eleito, um político mude para um partido completamente contrário às ideias da sigla para a qual foi eleito.

Do ponto de vista prático, algumas medidas são urgentes: a renovação das lideranças partidárias e a ampliação da representatividade da sociedade civil na vida política do Brasil, exigindo, cobrando e fiscalizando. Pesquisas mostram que os partidos perderam a confiança de seus eleitores e temos uma carência hoje de lideranças políticas. Se continuarmos “deitados em berço esplêndido”, estaremos fadados a permanecer em situação vergonhosa, condenados à quinta divisão no campo do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). E os velhos caciques continuarão ganhando de goleada, obrigando os juízes a fecharem os olhos diante de uma falta grave, de um pênalti mal marcado ou de um gol em impedimento.

Parece que nestas eleições, repetiremos o vexame dos 7x1 da Alemanha, e perderemos feio no IDH. Não seria então o caso de pensar a base de criação de novos quadros, comprometidos com a integridade e a reestruturação do país? No passado, instituições de grande confiabilidade social, como a Ação Católica, forneceram quadros importantes para a vida política nacional. Se isso foi possível no passado, pode ser possível de novo no futuro, mas para isso é preciso começar a pensar agora.

Certamente, não resolveremos o problema nestas eleições. Mas, quem sabe, aprendamos com o futebol, que tem lançado grandes craques com inúmeras escolinhas de base espalhadas pelo mundo todo e não só no Brasil, e trabalhamos para formar a consciência política de novas gerações nas igrejas, nas escolas e, obviamente, no ambiente familiar. Esperamos ter a alegria de erguer em julho o caneco na Copa da Rússia, mas certamente ficaríamos ainda mais felizes se pudéssemos, em meio às grandes nações, elevar o caneco de campeões em educação e no combate à corrupção. Pensem nisso! “Pra frente, Brasil!”

 

São Paulo, 22/06/2018

Reitor

Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani

Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI