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Palavra do Reitor

O domínio da inteligência fora da internet

 

Mais um semestre se inicia e eu, de antemão, escolhi falar aqui sobre a padroeira do UNIFAI, Nossa Senhora da Assunção, festejada por toda a Igreja Católica no último domingo, 18 de agosto. Falar do dogma da elevação de Maria ao céu, proclamado por Pio XII em 1º de novembro de 1950, renderia ricas reflexões. Todos havemos de ressuscitar um dia e, se a misericórdia de Deus assim o permitir, sermos, como Maria, elevados à glorificação em Deus, isto é, gozarmos da eterna companhia do Pleno Amor, que nos preenche e nos faz superar todos os limites de nossa humilde condição.

Maria nos antecede nesse mistério. A despeito de todas as dificuldades, ela soube perceber os sinais da ação salvadora de Deus, confiou e se deixou conduzir por Ele. Por seus méritos, sua humildade, não colocou resistência à ação do Espírito divino e permitiu que por meio dela a Palavra se encarnasse na história humana e viesse armar sua tenda entre nós (Jo 1, 14).  Gosto de pensar que o papa recorreu à tradição milenar da Igreja para buscar um sinal de esperança no seio de uma humanidade perplexa frente a seu poder destruidor. Afinal, o dogma foi proclamado cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, sob os ecos das vozes emudecidas de 40 milhões de pessoas, vítimas dos combates em dezenas de países , de 6 milhões de judeus mortos em campos de concentração e de 1 milhão de pessoas ou mais, vítimas das bombas nuclerares despejadas sobre Hiroshima e Nagazaki.  

Além de versar sobre a esperança suscitada pela festa de Maria elevada à glória celeste, eu poderia falar aqui de outro tema igualmente profícuo e que tem tudo a ver com a Mãe de Deus: agosto é mês dedicado às vocações religiosas. E não pensem que apenas os vocacionados são os escolhidos. Deus conta com a adesão e a colaboração de todos, leigos e religiosos, para a construção de seu Reino aqui mesmo na terra, um Reino de Justiça e de Paz. Isso implica agir como a Virgem, que, no silêncio, estava atenta ao chamado de Deus e, com um “sim”, se colocou a serviço do plano de salvação. Papa Francisco nos disse uma vez que “na raiz de cada vocação cristã há um movimento fundamental da experiência de fé: crer significa deixar-se a si mesmo, sair da comodidade e rigidez do próprio eu para centrar a vida em Jesus Cristo”.

Como veem, assuntos não me faltam. De qualquer forma, minha intenção neste retorno de férias, era, em clima de muita alegria, dar as boas-vindas aos alunos novos e aos veteranos, aos professores, coordenadores e funcionários, mas um tema maior, infelizmente nada feliz, toma lugar.

Não sei se todos sabem, mas um pouco antes do início deste semestre, o UNIFAI foi vítima de um crime digital. O sistema de informática da instituição ficou à mercê de aventureiros, criptografando os servidores. Durante um bom tempo, todo o trabalho de nossa equipe de informática esteve voltado para a tentativa de recuperação de dados, informações e, obviamente, de rastreamento dos responsáveis por esse crime digital.

A quem interessa prejudicar uma instituição de ensino que já enfrenta as dificuldades “normais” por seu porte em um mercado dominado por gigantes? Muito embora o caso seja bem sério, não quero me alongar neste assunto – que, infelizmente, ainda deve tomar bom tempo das equipes do setor de informática, da secretaria e dos demais setores da instituição, a quem agradeço o empenho, o esforço e a estressante dedicação... Antes, procuro tirar dele uma lição.

Aproveito deste incidente, senão planejado, ao menos inusitado, para propor uma reflexão que julgo oportuna neste início de período de aulas: quanto tempo vocês vêm dedicando ao uso de dispositivos móveis? Quantas horas diárias gastam a responder e-mails, mensagens, a postar fotos, a comentar e a verificar as curtidas suas, de seus amigos? Quão vítimas desses aplicativos eletrônicos vocês estão? Manipulam o aparelho de celular ao lado do prato de refeição? Têm descurado em criar ou preservar momentos em família e de lazer longe da compulsão em visitar as redes sociais?

Se vocês responderam “sim” a uma que seja dessas perguntas, é bom ficarem alertas. Especialistas já apontam alguns efeitos colaterais da dependência, do uso desmedido desses aplicativos. Depressão, insônia, problemas de coluna e perda auditiva estão entre eles. E já denominaram Nomofobia, (expressão inglesa “no-mobile”) o estado de ansiedade causada pelo distanciamento do celular ou pela falta de bateria do aparelho. As consequências desta patologia são problemas de interação social e dificuldades de se comunicar em público. O pior é que elas nos incitam a viver segundo o tempo da máquina, e não segundo o tempo de nossa humilde condição.

Por conta da conexão ininterrupta, há os que se angustiam com a ausência de respostas às suas mensagens e sentem vontade incontrolada de responder instantaneamente a todas as que chegam a seus aparelhos. Mal se tem tempo de digerir uma informação e ela é logo repassada, sem controle, sem checagem, sem análise. O resultado é visível: pessoas cada vez mais ansiosas, imediatistas, superficiais, irresponsáveis.

Termino então este momento reflexivo com um pedido: sejam pacientes com os funcionários desta casa. Sei que não estavam a par dos últimos acontecimentos referentes ao ataque digital, mas agora que o sabem, valorizem aqueles que procuram atender suas demandas de retorno ao estudo, de impressão correta de boletos, procurando ao mesmo tempo recuperar tudo aquilo que foi criptografado e que impede a agilidade que somos levados a julgar como normal. A agilidade ligada ao tempo da máquina não é o mesmo que suportam nossa mente e o nosso coração.

A tecnologia é importante, sim, necessária até, mas procurem exercer o autocontrole como forma de preservar a qualidade de vida, a saúde, sua e de suas relações. Diminuam o acesso às redes sociais em casa. Aproveitem os momentos livres para uma boa leitura, um bom bate-papo, para o lazer em família, para o exercício da espiritualidade, para o silêncio necessário para que se abra um tempo ao pensar e ao contemplar. Descubram os seus reais talentos e desenvolvam a inteligência fora da internet, dado os perigos do uso abusivo de toda essa parafernália tecnológica para a saúde e o já perceptível impacto danoso em nossa vida pessoal e profissional.

Um excelente semestre a todos!

São Paulo, 22/08/2019

Reitor

Prof. Dr. Pe. Edelcio Ottaviani

Reitor do Centro Universitário Assunção - UNIFAI