As causas da pobreza nos estudos de população
Gilberto Cunha Franca
      Professor de geografia do UNIFAI
 
      Desde que Malthus escreveu seu Primeiro Ensaio Sobre a População em 1798 tem se discutido muito sobre as causas da pobreza. Para este pensador inglês do século XVIII a causa da pobreza era o fato natural do maior crescimento da população em relação à produção de alimentos, na linha do pensamento liberal de Locke, que via a propriedade como natural, um produto da riqueza do trabalho, ou de Smith, que também via as leis do mercado como algo natural. Rousseau e Marx inauguraram outra tradição, que chamam para o social a explicação da pobreza. Marx mais especificamente, chama a atenção para as relações sociais de produção historicamente determinadas, como as causas da riqueza e da pobreza.

 

      Os estudos de população na geografia e na demografia também foram influenciados por estas fundamentações teóricas. É claro que estudos acadêmicos tentaram construir interpretações intermediárias entre as duas fundamentações, gerando práticas políticas também intermediárias, que às vezes tendem mais para soluções público-estatais como remédio para diminuir a pobreza. Exemplo disto foi a política do estado social. Outras vezes, para soluções de mercado e de produção, aproximando-se, ainda que de forma invertida das idéias de Malthus, como é a política de ênfase no mercado e no agro-negócio que predomina no Brasil nas últimas duas décadas.

 

      Muita coisa mudou na população brasileira para que tudo que é essencial continuasse igual. É essencial, no que se refere à população no nosso país, a concentração de riqueza, a desigualdade social, a pobreza e a violência. Como já atestou a nossa história, mesmo nos momentos de boa produção e desenvolvimento econômico, estas questões continuam quase imutáveis. Portanto, é preciso olhar para aquilo que é estrutural, próprio da nossa formação sócio espacial, como fizeram Florestan Fernandes, Caio Prado, Celso Furtado, Milton Santos. Todos, de sua janela científica olharam para o que era particular na continuidade da desigualdade social da população, a partir da política, da história, da economia, da geografia.

 

      Por causa da manutenção de problemas estruturais da realidade brasileira, tais como a grande interferência externa, a limitada democracia, a superexploração do trabalho, a urbanização crítica, até mesmo a diminuição da taxa de crescimento populacional, de fecundidade e o aumento da expectativa de vida, não alteram os aspectos mais importantes do fenômeno populacional brasileiro: desigualdade social, entre sexo, racial e regional. Isto ocorre porque a melhoria nos aspectos apontados é reduzida pela informalidade do trabalho, pelo desemprego, que voltam a penalizar principalmente as mulheres, os negros e as regiões e localidades mais pobres. A constatação destes problemas seculares é um bom ponto de partida para pensar a causas da pobreza da população brasileira.