A escrita do nome próprio: passaporte para o mundo da leitura e da escrita

Sílvia Moretti Rosa Ferrari[1]
 

      Ser capaz de escrever o próprio nome tem significado, ao longo dos tempos, uma conquista para o ser humano. Podemos de certa forma atribuir, a essa conquista, uma forte conotação simbólica: para o adulto analfabeto, ser capaz de escrever o próprio nome significa dar os primeiros passos para ultrapassar a linha divisória que o exclui do grupo dos que não assinam, dos que usam as digitais do seu polegar para serem reconhecidos como cidadãos. Para a criança, essa escrita possibilita uma atividade que lhe permite refletir sobre o sistema da escrita, adentrando parte específica e tão valorizada da nossa cultura. Em geral, grafar o próprio nome é também uma ação marcada pelo prazer resultante do sentimento de ser capaz de escrever e de se reconhecer naquela escrita.
      Tanto para os adultos como para as crianças, ainda que a escrita do próprio nome inicialmente não se dê dentro das normas padrão da língua, ela possibilita pensar sobre o sistema da escrita, uma vez que estão lidando com um modelo estável, que se refere a um único objeto e que, além de não permitir ambigüidade na sua interpretação, tem carga valorativa, pois se relaciona com a identidade do sujeito. “Aprende-se a ser a gente mesmo por escrito” (Ferreiro, 1995).
      Para além da escrita do próprio nome, o que se deseja é que o aprendiz amplie o seu repertório de letras ao observar a escrita dos nomes de seus colegas, comparando-o com o seu e tomando esses nomes e essas letras como referência para o progressivo aprendizado de outros textos.
      Na escola, os professores que buscam organizar a dimensão didática das suas aulas dentro da proposta sócio-construtivista costumam acolher sem resistências a prática da escrita dos nomes das crianças, destacando a sua função social. Orientam seus alunos para que nomeiem seus trabalhos e objetos, fazem a chamada do dia usando diferentes variáveis, sempre pondo em destaque os nomes de cada um. Ora usam letras móveis, cartelas, ora propõem jogos que possibilitem as mais diversas atividades de cópia, de leitura, de análise da escrita, dependendo da hipótese em que se encontra o aluno.
      Infelizmente, o que se observa, é que após alguns dias de exploração dos nomes próprios, alguns professores abandonam essa prática, contentando-se com a memorização da sua escrita e deixando de lado a oportunidade de outras explorações e reflexões, que certamente ajudariam os alunos a avançar na construção da base alfabética.
      Esses professores, embora se vejam como profissionais que pensam em consonância com as idéias da psicogênese de Emília Ferreiro e de seus seguidores, se traem desenvolvendo práticas que freqüentemente descuidam das funções sociais da escrita e da exploração de textos como unidades que possuem um significado e um sentido. Assim, na ânsia de que seus alunos dominem o código, muitas vezes propõem, por exemplo, a escrita de um conjunto de palavras escritas umas abaixo das outras, todas iniciadas por uma determinada letra. No seu conjunto, a professora explora um determinado grafema e, como se descuida do campo semântico acaba por propor um escrito que lembra uma lista, mas que não passa de um conjunto de palavras soltas descoladas de seu contexto real de comunicação. É assim que vemos propostas como “escrita de listas de pessoas cujos nomes comecem por A” - independente desses nomes se referirem a pessoas reais e de terem função social. Seriam mais proveitosas atividades como:

      -  Leitura e / ou escrita dos nomes dos meninos e das meninas da sala; 

      -  Leitura dos nomes dos ajudantes do dia;

      -  Chamada dos alunos mediante a apresentação de tiras com o nome de cada um;

      -  Anotação, destaque dos nomes dos alunos ausentes naquele dia;

      -  Organização de agendas com os nomes e telefones dos alunos da classe;

      -  Marcação dos próprios trabalhos e objetos com o nome próprio;

      -  Chamar a atenção para nomes iguais e as diferenças de sobrenomes;

      -  Jogos variados: forca, bingo de nomes...

      -  Músicas que promovam a inclusão dos diferentes nomes da classe. Exemplo – “Se eu fosse um peixinho e soubesse nadar eu tirava o João do fundo do mar”. A professora pode ir mostrando diferentes cartões com os nomes para que, mediante a sua leitura, os alunos possam introduzi-los na música.
São muitas as possibilidades de se trabalhar com os nomes próprios. Mas para que as atividades didáticas sejam qualificadas, é imprescindível que elas sejam acompanhadas de reflexões que permitam refinar continuamente a concepção que lhes dá sustentação.