Aquecimento Global e a Sociedade de Risco

 Prof. Alvair Silveira Torres Junior.

      A recente divulgação do Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, em Paris, atestando cientificamente o aquecimento global como efeito parcial das ações do ser humano sobre a Terra, nos faz lembrar e compartilhar com os amigos leitores sobre o conceito de Sociedade de Risco criado pelo filósofo alemão Ulrich Beck na década de 90. Naquele período, fins do século passado, a Civilização Européia havia sido impactada pelo medo de catástrofes como Chernobil e Bhopal, cujos acidentes colocaram em perigo a contaminação das massas de ar que poderiam se deslocar aos países europeus ou outras regiões do mundo. O acidente nuclear de Chernobil ocorreu em 26 abril de 1986, na Usina Nuclear de Chernobil na Ucrânia, produzindo uma nuvem de radioatividade que atingiu a Rússia, Europa Oriental, Escandinávia e Reino Unido. Cerca de 200 mil pessoas foram evacuadas e reassentadas nas regiões próximas. Em dezembro de 1984, por sua vez, 40 toneladas de gases letais vazaram da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide na cidade de Bhopal, Índia. Três dias depois do acidente 8 mil pessoas haviam morrido e até hoje cerca de 150.000 sobreviventes sofrem com doenças crônicas. Nos anos seguintes iniciaram-se discussões sobre o fato da sociedade industrial e científica, até então reconhecida pelo progresso e capacidade de produzir riqueza, não obstante sua má distribuição, também passava a produzir riscos e distribuir o medo. Daí o nome Sociedade de Riscos.
 
     O Aquecimento Global parece reacender o debate, em que pese discussões pouco aprofundadas na mídia, lembrando-nos de como as ações de uso dos Recursos Naturais e a tecnologia empregada na sua transformação, possibilitaram conforto e riquezas no curto prazo, na mesma medida, entretanto, em que estabeleceram um processo insidioso de insustentabilidade desses padrões no longo prazo. A sociedade industrial agora se reveste como sociedade de riscos, espalhando elementos de destruição sem respeitar fronteiras, ricos e pobres, seja pela água, pelo ar ou pelo clima em mudança, cujo aquecimento gradativo vai pondo em risco desde as terras baixas da rica Holanda, até pequenos países insulares e pobres, ambos vistos como virtuais vítimas do aumento no nível dos oceanos. Sobre o impacto na produção de alimentos já se conta com a incapacidade de plantio de algumas espécies em vários locais do mundo e a diminuição da produtividade em outros.  Para completar, vários pontos do Planeta se tornarão inabitáveis com o aumento da temperatura, das intempéries e os extremos das mudanças climáticas.
     Cabe-nos refletir se a riqueza produzida por nossa sociedade de fato assim é, ou, se na verdade, a Modernidade consumiu a Natureza e agora inicia o consumo de si mesma, colocando em perigo toda a Humanidade. Há algum tempo já se discute sobre a função social do lucro, da Responsabilidade Social das Empresas, do Terceiro Setor como regulador da Sociedade, dentre outras novas questões que a Universidade precisa disseminar e discutir com o público. Só uma sociedade consciente e informada desse trágico e oculto processo poderá evitar a futura repartição de riscos. Em seu lugar e preventivamente – pois ainda há tempo – deve-se desde já negociar e praticar novos processos de produção e consumo, com a concomitante repartição social de responsabilidades e ações que evitem a destruição de nosso Planeta.